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Ramon D'Ulevart

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Petrus - Parte 2 (Final)

2011-09-14 16:42

 

BENJAMIN OBSERVAVA o resultado de seu trabalho árduo do último mês, mais de sessenta urnas mortuárias recolhidas de diversos pontos da propriedade de seus pais.

_ Ainda falta muito Petrus? – Benjamin fitava o nada dentro daquele sótão frio.

 

 

_ BOA NOITE querida. – Fábio Dorian beijou a testa de Corinne. – Como foi seu dia hoje?

_ Nada bom. – A mulher virou-se para o outro lado.

_ O que aconteceu Corinne? – O marido sentou-se ao lado dela na cama. – Conversa comigo. – Pediu.

_ É o Benjamin Fábio, ele está me desobedecendo.

_ O quê? – Indagou ele. – O que ele fez?

_ Ele tem ido ao andar de cima.

_ Mas Corinne... Isso é mesmo tão sério? – Ele passava a mão no rosto da esposa, enquanto observava apreensivo seus olhos marejados.

_ Ele desobedeceu a uma ordem minha Fábio! Não quero o Benjamin perambulando pelo andar de cima. – Desabafou a mulher.

_ Mas por que você implicou tanto com isso? Não há nada de mais lá... Não vejo motivos para proibí-lo.

_ Fábio! – Exclamou a esposa contrariada. – Eu já te disse! Tem algo errado lá, eu posso sentir.

_ Não seja tão duro com ele...

_ Não Fábio! Eu não aguento mais ver o Benjamin andando pra cima e pra baixo com esse tal de Petrus! – Disse Corinne abalada.

_ Querida, - O Dr. Dorian pôs as mãos em volta do rosto de sua esposa e beijou-a carinhosamente. – Vai ficar tudo bem. Vamos dar um tempo a ele? Se até o próximo final de semana Petrus não tiver ido embora o levaremos a um psiquiatra amigo meu, tudo bem?

_ Tudo. – Choramingou a esposa. – Fábio?

_ O que foi amor?

_ Eu não gosto desta casa. – Confessou ela.

_ Mas querida, foi um grande negócio...

_ Eu sei, eu sei. Conversamos sobre isso antes de comprá-la. – Ela virou-se para o marido e aproximou o rosto do dele. – Eu estou com medo.

_ Não precisa ter medo Corinne. São só histórias.

_ Histórias que realmente aconteceram Fábio!

_ Há mais de oitenta anos atrás!

Corinne levantou-se, pegou a escova que estava em cima da penteadeira, e pôs-se a escovar os cabelos próximo a janela, de costas para Fábio, que permanecia sentado na cama.

_ Sabe o que Benjamin disse ontem à noite quando eu tentei acender a lareira? – Ela reiniciou o diálogo.

_ O que ele disse?

_ Que nem ele, nem Petrus ficariam na sala, porque foi assim que Petrus e seus irmãos haviam morrido, queimados.

E pela primeira vez desde que havia se mudado para Turvoria, o Dr. Dorian deixara sua esposa vislumbrar a expressão de surpresa em seu rosto.

 

 

ERA SEXTA-FEIRA, e Corinne havia ido buscar Benjamin na escola como o de costume, mas o caminho para casa não fora o mesmo de sempre. Eles estavam a caminho da clínica Harper, onde o Dr. Christian, psiquiatra e grande amigo de Fábio, estava a espera de Benjamin.

Após a consulta, Corinne levou o filho para tomar um chocolate quente e fazer algumas compras. Ao retornarem à mansão Rubius, Benjamin correu para o seu quarto no andar térreo e bateu a porta. Sua mãe o seguiu. Antes que pudesse empurrar a porta ouviu a “discussão”.

_ Eu sei! – Gritou o menino. – O que você que eu fizesse Petrus? Ela é minha mãe! – Fez-se silêncio por alguns segundos. – Ela me levou para conhecer um amigo do papai... – O garoto falava com mais calma. Narrou sua visita ao Dr. Christian, Petrus parecia estar muito interessado. Corinne chorava em silêncio do outro lado da porta.

Corinne e Fábio dormiam abraçados depois de uma longa e difícil conversa e uma decisão tomada. No dia seguinte, mãe e filho voltariam para sua antiga casa, Benjamin iniciaria um acompanhamento psiquiátrico, enquanto Fábio permaneceria em Turvoria até encontrar alguém que o substituísse na clínica Harper.

No chão, próximo à cama estavam os desenhos e as cópias dos relatórios de comportamento de Benjamin em sala de aula, entregues a Corinne pela Srta. Bell, professora de Benjamin. As folhas de papel branco continham diversas ilustrações de crianças queimando, presas dentro de uma casa, além de inúmeras repetições de um garoto sendo trespassado por uma faca pelas mãos de uma entidade misteriosa, representada por uma massa negra sem forma alguma. As fotocópias dos relatórios de comportamento denunciavam a agressividade de Benjamin em sala de aula nas últimas semanas.

 

MARTELADAS INCANSÁVEIS despertaram Corinne, que se levantou para averiguar de onde vinha aquele som persistente, vestiu seu robe e seus chinelos, porém, antes de sair do quarto, um clarão chamou sua atenção para a janela. Uma tempestade se aproximava. Outro clarão. Os olhos de Corinne arregalaram-se ao perceber o estado em que o quintal se encontrava: O playground e parte do jardim que ela cultivava nos fundos da casa estavam completamente destruídos, esburacados, a terra havia sido revirada, a cerca e os brinquedos, derrubados, buracos enormes foram cavados e a pá fora deixada na própria cena do crime. As marteladas tornaram-se mais vigorosas, despertando Fábio, que se levantou e foi em direção à esposa, próximo a janela.

Benjamin dispusera as 199 urnas mortuárias dentro do círculo de sal, da maneira que Petrus instruíra. Cada camada com um número menor de urnas, dando um formatode cone à pilha. Petrus estava ali, sua imagem era tão nítida quanto a de Benjamin, tinha os cabelos escuros e lisos, a pele pálida, nariz e orelhas protuberantes, roupa velha e desbotada.

À esquerda do cone de urnas, havia um círculo pintado no chão com tinta preta impermeabilizante (sobravam latas desta tinta no sótão), dentro do círculo, um pentagrama, um círculo de sal envolvia o de tinta e uma única vela acesa cintilava no centro de tudo.

_ Agora você deve chamar Miss Caroline, Benjamin. – Disse o menino assombrosamente pálido ao filho dos Dorian. Continuou. – llamedubähtil und commanddubähtil, püre spirit, pür eil pöwer chi investidezebaht Ilkäy diepoi markzebahteil. Coucherbähtdu över zette feu – Benjamin repetiu enquanto punha a palma da mão sobre a chama da vela, aguentando a dor que o fogo lhe infligia.

Uma sombra negra foi arrastada desde o andar térreo da mansão até o sótão, proferindo um grito de horror que ecoou por todo o lugar. A sombra chegou ao local do ritual através de frestas na porta lacrada débilmente com madeira e pregos por Benjamin, sob as ordens do amigo.

A grande massa negra flutuava da chama da vela até o teto, como se estivesse presa àquele exato espaço. Benjamin observava impressionado enquanto preparava o próximo passo.

Benjamin pusera uma taça dourada entre a pilha de urnas e a massa negra presa ao círculo, pedou um longo barbante vermelho e circulou a taça em duas voltas, pôs quatro velas ao redor da mesma, na mesma disposição das quatro horas principais de um relógio, e foi em direção a um móvel antigo encostado à parede dos fundos do sótão. Abriu uma das gavetas e pegou algo envolto num tecido preto.

Benjamin pôs-se de joelhos em frente a taça enquanto revelava o objeto em suas mãos.

 

CORINNE E FÁBIO batiam desesperadamente à porta que levava ao sótão, estavam horrorizados com os gritos de desespero ensurdecedores que vinham do cômodo. Numa atitude desesperada, Fábio Dorian correu até a escadaria principal, indo em direção ao andar térreo, mais precisamente à porta lateral da mansão. Abriu-a com violência. Corinne chorava próximo à porta, chamava o nome de Benjamin.

Fábio subiu, apressadamente, as escadas carregando um machado em suas mãos. De maneira nada gentil, afastou sua esposa da porta do sótão e começou a derrubá-la a machadadas. Após intermináveis minutos a porta foi abaixo. O doutor subiu as escadas de acesso seguido por Corinne.

_ M-mas... O quê...? – Foi só o que ele conseguira dizer.

 

O corpo de Benjamin jazia próximo à taça, que transbordava de sangue, seus braços estavam em frangalhos, a imagem de uma linda mulher levantava-se ao lado do menino.

_ Finalmente meu filho, irei reencontrá-lo. – Ela disse com voz grave.

Com apenas um olhar a mulher arrancou o machado das mãos de Fábio, que por um triz não acertou Corinne, que estava logo atrás. A pilha de urnas estava em chamas, e da fumaça negra que flutuava sobre a vela do círculo ao lado do corpo de Benjamin, revelava-se o rosto de um menino louro, usando óculos de armações grossas. Ele chorava desconsoladamente. O nome dele? Petrus.

 

Ramon D'Ulevart