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Ramon D'Ulevart

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PETRUS - Parte 1 de 2

2011-08-25 11:18

 

O CARRO do Dr. Fábio Dorian passa pela placa de boas vindas de Turvoria em alta velocidade.

Há muitas horas que não se via nada além da vegetação desfolhada característica daquela época do ano, um solavanco inesperado despertara a Sra. Dorian no banco do carona.

_ Mais devagar querido – Disse ela em tom de advertência antes de se virar para o banco de trás, certificando-se de que o pequeno Benjamin ainda dormia. – Há quanto tempo estamos na estrada?

_ Há mais de quatro horas Corinne. – Respondeu o jovem médico sem tirar os olhos da estrada. – Quero chegar antes do anoitecer.

_ Estamos muito longe?

_ Já passei pela placa de boas vindas, mas até agora nada de civilização.

Naquele momento o carro passava por uma antiga ponte de madeira, e logo após, era possível avistar a primeira propriedade. Um grande portão de madeira se colocava em frente a um extenso campo gramado, e em seu final, levantava-se uma graciosa casa branca de dois pavimentos, janelas de vidro, telhado marrom e uma enorme varanda que rodeava todo o pavimento térreo.

_ É a casa do Dr. Julius. – Disse Fábio Dorian para a esposa. – Terei que visitá-lo amanhã.

Após visualizarem mais algumas propriedades distribuídas a esmo pelo território percorrido, a família Dorian chegou ao simpático centro comercial de Turvoria. Com a chegada da noite os postes de luz começaram a acender-se, mas havia pouco movimento nas calçadas e ruas. Era domingo. Havia se passado pouco mais de vinte minutos após as 18hs quando Fábio e Corinne avistaram a clínica médica Harper, onde ele passaria a atender os pacientes do Dr. Julius. A frequência de prédios e casas diminuiu, a luz tornou-se escassa. O centro comercial de Turvoria ficara para trás, Fábio, Corinne e Benjamin Dorian finalmente chegaram a seu novo lar, a mansão Rubius.

A nova casa dos Dorian havia sido reformada há pouco menos de um ano, mas o desgaste na pintura era bem visível. Fábio teve que descer do carro para abrir o portão de ferro que trancava a propriedade. Ouviu-se um ranger estridente vindo das dobradiças enferrujadas.

_ O que é isso? – Indagou-se, incrédula, Corinne Dorian ao observar a velha mansão.

_ Muito legal né mãe? – Perguntou Benjamin animado.

_É... Muito legal filho... Muito legal. – Respondeu Corinne absorta em seus pensamentos.

 

 

A MANSÃO Rubius fora um orfanato a muitos anos atrás, de certos ângulos sua arquitetura lembrava a de uma igreja. Sua fachada extremamente simétrica denotava a personalidade perfeccionista de quem a projetou, a entrada principal erguia-se como uma torre, culminando em uma forma triangular ornamentada por um vitral circular colorido, logo abaixo dele estava a sacada do segundo pavimento, nela havia somente uma enorme porta de madeira e vidro em forma de arco. E, finalmente, no andar térreo da torre principal, havia a porta de madeira escura, ricamente ornamentada por entalhes de anjos e crianças, “Assustador” na opinião da Sra. Dorian. Dos lados esquerdo e direito da torre, havia dois anexos exatamente iguais, telhado escurecido, pintura bege desbotada, no segundo pavimento três janelas alongadas verticalmente dispostas uma ao lado da outra e no andar térreo, apenas uma única vidraça com a extensão das três janelas de cima juntas.

 

JÁ FAZIA mais de uma semana que o Dr. Dorian havia substituído o Dr. Julius na clínica Harper, Fábio Dorian jamais tinha trabalhado tanto em sua vida, parecia que a cidade toda era paciente do Dr. Julius, e agora, pacientes dele. Fábio chegava em casa exausto todas as noites, desejando apenas uma longa e profunda noite de sono, o que nem sempre era possível, já que frequentemente recebia chamadas de pacientes em plena madrugada, de dores de cabeça a ossos quebrados, parecia não haver um único cidadão saudável em Turvoria.

Numa noite excepcional o casal Dorian jantava tranquilamente em sua elegantemente assustadora sala de jantar.

_ Querido, nós precisamos conversar.

_ Oh! Tudo bem Corinne. – Disse o médico um pouco surpreso. – Sei que tenho estado um pouco ausente, é que ainda não me acostumei com o ritmo...

_ Não é isso Fábio. – Interrompeu-o. – Sei que está trabalhando muito, é sobre Benjamin.

_ Benjamin? – Sussurrou ele. – Aconteceu algo na escola?

_ Não tenho certeza do que aconteceu, nem onde aconteceu, mas algo está errado. – Disse Corinne preocupada.

_ Ele não pode estar doente, faz pouco tempo que fizemos todos os exames e...

_ Não, não é esse tipo de doença Fábio.

_ O que você está querendo me dizer Corinne? Já estou ficando preocupado!

_ Sabe onde está Benjamin agora? – Perguntou ela.

_ Brincando no quarto dele?

_ Não. – Fez uma pausa. – Ele está brincando com Petrus no quarto dele. – Concluiu Corinne visivelmente inquieta.

_ Ah! – Exclamou Fábio aliviado. – O amigo imaginário.

_ Você sabia? – Perguntou a moça indignada.

_ Sabia, ele me disse algo a respeito há uns dois dias atrás.

_ E isso não te preocupa Fábio?

_ Corinne, isso é normal na idade dele, além do mais, ele está numa cidade nova, numa escola nova, é uma maneira que ele tem de lidar com todas essas mudanças. Nós não tivemos uma vida estável nos últimos anos não é querida?

_ É verdade... Agora estou me sentindo tão culpada... Não somos bons pais...

_Corinne, - Fábio se levantou e foi em direção a Corinne. – Não precisa se preocupar tanto, logo logo Benjamin fará novos amigos na escola, e o pequeno Petrus irá partir. Não se culpe. – O marido consolava a esposa enquanto massageava seus ombros.

 

 

 

A TARDE estava fria, e Benjamin vestia uma capa azul-marinho para se proteger do vento, brincava naquilo que há muito tempo fora uma horta, cultivada pelos internos do orfanato Rubius. Sua mãe, Corinne, o observava através das cortinas e da enorme janela de vidro da sala de estar.

_ É aqui? – O garoto de apenas oito anos apontava para a terra morta daquela horta. – Então eu preciso cavar aqui? E vou poder ajudar todos os seus amigos Petrus? – O menino colocou-se de pé e continuou seu monólogo. – Eu vou te proteger da Miss Caroline Petrus, eu prometo! – Jogou-se de joelhos no chão e pôs-se a cavar.

Corinne retirou-se para a cozinha. “Crianças precisam explorar” pensou ela com o objetivo de tranquilizar-se.

Benjamin retirava uma a uma as cinco urnas mortuárias continas naquela cova rasa encoberta pela mini horta.

_ Você está sorrindo Petrus. – Reparou Benjamin. – Isso significa que encontramos não é? Esses são os espíritos dos seus irmãozinhos né? – Após uma breve pausa o garoto continuou. – Tem razão, preciso arrumar esta bagunça. – E o menino começou a realinhar a horta.

Benjamin colocou três das urnas encontradas em sua inseparável mochila-saco de lona verde, as outras duas levava com as mãos. Cuidadosamente, o garoto certificou-se de que sua mãe estava na cozinha, e utilizou uma das entradas laterais da casa. Com cautela, ele subiu a escadaria principal, evitando fazer qualquer ruído, já que Corinne o havia proibido de visitar o andar superior da casa.

Benjamin e seu amigo Petrus haviam montado um clube bastante exclusivo.

 

 

NO SEGUNDO pavimento da mansão Rubius havia seis dormitórios, uma enfermaria, dois banheiros/vestiários e uma suíte, que pertencera a antiga proprietária da mansão, Caroline Rubius. A entrada para o sótão ficava próxima a enfermaria, no final do corredor. Benjamin e Petrus subiram mais um lance de escadas.

 

 

CAROLINE RUBIUS fora uma moça feliz e cheia de vida, há muitíssimos anos atrás. Proveniente de uma família rica e bem sucedidada pequena Turvoria, Caroline sempre fora considerada um bom partido para as famílias da cidade. Os pais das garotas queriam inserí-las no círculo de amizades da filha única dos Rubius, enquanto os pais dos garotos, sonhavam em casá-la com seus filhos.

Os Rubius nunca impuseram nenhum noivo a sua adorada filha, em vez disso, investiram em sua educação, e após cursar uma das mais respeitadas faculdades de administração do país, a doce Caroline retornara a Turvoria para assumir as indústrias Rubius. Apesar disso, Caroline sempre sonhara em se casar e ter filhos, e decidira, aos vinte e oito anos de idade, que já estava na hora de realizar este sonho.

Pretendentes não faltavam à Caroline, que além de rica era muito bonita, mas seu coração fora roubado por um forasteiro, Carlos. Durante pouco mais de dois meses, os dois viveram uma intensa e arrebatadora paixão. Entretanto, depois desse tempo Carlos tivera que voltar ao seu país de origem, e apesar dos pedidos de Caroline para que ela o acompanhasse, o sedutor partira sozinho.

Após algumas semanas, Caroline percebera que Carlos havia lhe deixado uma lembrança. A moça estava grávida.

Um grande desgosto trespassou o coração dos pais de Caroline, que após algum tempo de relutância, lhe ofereceram todo o apoio necessário durante a gravidez. Apesar disso, o Sr. Rubius, que convivia com uma doença degenerativa há anos, falecera antes de conhecer o neto, Ferdinando.

As duas mulheres e o bebê passaram a ser as únicas habitantes da mansão Rubius. E enquanto Caroline tomava a frente dos negócios de seu pai, a Sra. Rubius entrou em depressão profunda. Inicialmente, apenas o pequeno Ferdinando levava alguma vida ao rosto da avó, mas com o passar do tempo, nem o neto alegrava aquela senhora. Com a explosão da guerra nos países vizinhos, a Sra. Rubius tornou-se nervosa e paranóica, passando a ser vista como uma ameaça a segurança de Ferdinando e Caroline, que achou melhor internar a mãe em uma casa de repouso.

No aniversário de oito anos de Ferdinando Caroline ofereceu um jantar para os amigos do filho e suas respectivas famílias. Resolveu convidar a avó do garoto, levou-a para a mansão Rubius. Caroline achava que a mãe não tinha muito tempo de vida, e sentia-se culpada por tê-la afastado da criação de seu neto.

Depois de cortarem o bolo, Caroline levou o filho até o playground, nos fundos da casa, onde a avó o esperava sentada num dos balanços. Caroline os deixou a sós, para que se conhecessem melhor. E aquela foi a última vez que Miss Caroline vira sua mãe ou Ferdinando com vida.

 

 

CONTINUA...