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Ramon D'Ulevart

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Anna Romanov

2011-09-23 02:30

“Se eu fosse um pássaro...”, pensou Anna, no seu quarto escuro (que mais parecia uma cela). A garota vivia num orfanato nos arredores de São Petersburgo. “Eu voaria pra bem longe... pra encontrar minha família... queria saber por que me deixaram com o Sr. Tchaikowski...”.

O inverno era rigoroso, Anna não queria fazer nada além de ficar no quarto, mas tinha suas tarefas de todos os dias. A diretora do orfanato, Tahnia era muito exigente. Ouviam-se muitos rumores pelos corredores, entre os funcionários, professores e internas, que diziam que Sr. Tchaikowski iria voltar de Moscou para levar Anna com ele. Ele tinha se separado de sua esposa e queria que Anna tomasse o seu lugar. Anna tinha apenas 15 anos.

“Você vai embora amanhã, arrume suas coisas.” Tahnia se retirava do quarto. Anna já havia planejado tudo, iria fugir na mesma noite, não queria voltar para casa do malvado Sr. Tchaikowski.

A neve fofa chegava a seus joelhos. O bosque parecia interminável, a menina lembrava-se de todas as suas brincadeiras naquele lugar. Sua preferida era a guerra de bolas de neve com as outras internas. Depois de algumas horas de caminhada em meio a uma nevasca que só dificultava sua viagem, Anna sentia muita fome. Sentou-se ao pé de uma árvore e abriu sua pequena mochila vermelha que havia ganhado de uma das funcionárias do orfanato, tirou um grande pedaço de pão que tinha roubado da cozinha e comeu como nunca antes havia comido.

Ao terminar de saborear aquele pão, ela passou a tocar o pingente do seu cordão, que sempre estivera com ela e que tinha uma revelação de sua família: “Juntos em Paris”. Anna almejava morar lá, pois alimentava a esperança de encontrar sua família. Ela tentava fitar todos os detalhes daquele pingente dourado, porém, o seu cansaço a fez adormecer...

Ainda meio inconsciente, a garota sentiu algo pousando em seu nariz. Anna arregalou os seus olhos tentando encontrar o que tirara o seu sono, quando ela se espantou com uma borboleta azulada que parecia dizer algo. Aquele curioso inseto voava ao redor da garota e parecia convidá-la para um passeio pelo bosque. Ele começava a desaparecer de sua vista, mas Anna, esperta, seguiu-o. À medida que se afastava do local onde havia dormido, ela percebia que o ambiente do bosque, outrora muito familiar, começava a ficar estranho. A borboleta voava rapidamente, mas a garota não desanimava, acelerava sua corrida. Quase exausta, ela começou a notar, à distância, a aproximação de muralhas aparentemente infinitas.

Anna viu um minúsculo ponto por meio do qual a borboleta entrou. Ao se aproximar, Anna viu que se tratava de portões. Eles se abriram, e por detrás destes se encontrava uma garota em pé, triste, fitando o chão e que aos poucos elevava seus olhos como se estivesse enxergando a solução dos problemas à sua frente. Em instantes sua tristeza se converteu em um leve sorriso de esperança e falou:

-Você é a esperança deste reino!

Anna ficou assustada com a expressão de desespero da garota e retrucou:

-Como assim? Eu, a esperança de um lugar que eu nem conheço?

-O ancião Tolstoi há muitos anos atrás lançou uma profecia de que este reino, chamado Alexei, cairia nas mãos do terrível mago Kostova que aprisionaria a família real por meio de um feitiço e subordinaria o povo à escravidão em outro reino, pertencente a ele. Mas, nessa profecia, ele revelava o surgimento de uma grande salvadora, aquela que libertaria este reino das maldades daquele mago. O sinal que nos indicaria essa heroína seria sua entrada com um medalhão dourado por este portão no 7º dia da tomada do reino. Ou seja, essa pessoa é você, Anna!

- Mas...

Nesse momento, Anna foi surpreendida com o trancamento imediato do portão do reino e um puxão dado pela garota em seu braço.

-Vamos sair daqui imediatamente, o mago Kostova se aproxima.

-Mas, espere...

-Não! Nossas vidas estão em risco! Vamos logo!

Porém, suas tentativas de fugir foram desbaratadas com um feitiço que as imobilizou, impedindo-lhes de correr.

-Droga! Tarde demais, Anna. Agora vamos ter que enfrentá-lo.

-Mas porque isso? O que está acontecendo?

De repente, Kostova surge e, com um sorriso macabro, diz:

-Hahahaha, eu sabia que eu poderia usar você Alexandra, como um meio de chegar ao medalhão e destruir Anna, e finalmente vingar a morte do meu irmão Rasputin.

-Rasputin? – repetiu Anna, achando o nome muito familiar.

-Isso mesmo, Rasputin meu irmão, que foi traído por sua família! “Nenhum membro da família Romanov sobreviverá...” essa foi a maldição proferida por ele e eu estou aqui para consumá-la. E como recompensa, terei a jóia de Gógoi, que dá poder absoluto ao seu portador.

-Jóia de Gógoi?

-Isso! Essa medalha que você leva no pescoço. Com ela você poderia libertar o povo de Alexei, mas você não estará viva para fazer isso – Disse Kostova, dando uma leve e tenebrosa risada.

-Então... Anna é a portadora de Gógoi... – Sussurrou Alexandra.

Kostova se dirigiu à menina.

-Você foi apenas um mero instrumento, eu já sabia da previsão do velho Tolstoi – Se aproximava cada vez mais das garotas impossibilitadas de realizar quaisquer movimentos – Eu deixei você fugir naquela noite, porque você me levaria à Gógoi.

-Anna! – Gritou Alexandra – Use o poder da medalha para derrotar esse cretino! Não permita que ela a tire de você!

-Que poder? Não sei do que os dois estão falando!

Kostova se aproximou de Anna, e lhe arrancou o colar e a medalha. Mas para a surpresa de todos, o velho e imortal mago não conseguia manter a medalha nas mãos, porque ela o queimava.

-Não entendo! Isso não deveria acontecer! – Reclamou o mago – Se eu não tiver esse poder, ninguém mais o terá! Vou matar vocês duas, e exterminar a família real de Alexei! Vou executar o Rei, a Rainha, e seu irmão Alexandra, do mesmo jeito que exterminei a família de Anna, ou seria Anastásia? – Deu uma longa pausa, olhou bem fundo nos olhos em lágrimas de Anna, e continuou – Vou fazer seu próprio povo se revoltar contra eles, dominarei suas mentes, como dominei a mente do povo que servia ao czar. Foi o último pedido de meu irmão.

-Anna você está bem? – Alexandra perguntou ao ver que sua companheira parecia profundamente perturbada. Não obteve resposta.

-Já que você vai morrer mesmo, pequena Anastásia, posso te dar algumas respostas para as dúvidas que lhe afligem a alma – Declarou Rasputin com seu eterno sorriso macabro.

- Não quero nada de você! – Exclamou Anna.

-Você sabe o porquê da inscrição “juntos em Paris”? Seus tios, os que lhe deram o medalhão moravam em Paris, eram os mais poderosos magos que já existiram neste planeta, e eles escolheram concentrar todo o seu poder nesta medalha porque pressentiram a catástrofe que iria acontecer à sua família, e acreditavam que você seria a próxima “feiticeira” da família, que você os salvaria de mim... Tolos! Sua família não escapou e nem você escapará!

Ao terminar a frase, kostova não teve tempo de dar o seu último suspiro, ruiu em cinzas sob o olhar da pequena Anna, que se libertou do feitiço por meio do poder da medalha, que se juntou a ela sem que kostova percebesse, após que este a deixara cair na neve. A única coisa que sobrou de kostova foi sua velha bengala, que tinha um grande cristal em sua extremidade, no qual estavam aprisionados os membros da família de Alexandra.

-Anna, você está bem? - Perguntou Alexandra, recobrando seus movimentos.

-Sim, estou. – Anna parecia estar em outro mundo, não acreditava no que acabara de acontecer, estava em transe.

-Você pode me ajudar com isso? – Alexandra levantou a bengala.

-Claro. Posso tentar.

Anna apertou com toda a força sua medalha, e fechou os olhos, desejando que a família real de Alexei fosse libertada, assim como seus súditos. Quando abriu os olhos novamente, se encontrava sentada debaixo da árvore, onde outrora havia comido. Já era dia, e a garota estava coberta de neve. Ao seu redor estavam quatro borboletas maiores, uma azul, mais a frente, e as outras três, uma vermelha, outra verde e a última Amarela num segundo plano, e outras milhares, menores e brilhantes das mais variadas cores estavam espalhadas por quase todo o território do bosque. Anna pensou ter ouvido a voz de Alexandra vindo da borboleta azul à sua frente.

-Seremos eternamente gratos, Anastásia.

“Não” pensou a garota que sentia um frio insuportável, “isso é impossível”. “Vou para Paris encontrar minha família”. E continuou sua jornada.

 

Ramon D'Ulevart